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TEXTOS SELECIONADOS ALTERNATIVA RH |
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Humilhação no Meio Corporativo Joaquim Castanheira Tempos atrás, o paulistano R.F.P., 29 anos, mergulhou em uma longa jornada de humilhações. Gerente de controladoria de um fabricante de aparelhos para laboratórios, ele rechaçou propostas de jogadas ilícitas feitas por seu chefe. A partir daí, R.F.P. viu um novo profissional ser colocado na hierarquia entre ele e o chefe, perdeu direito ao uso de Internet e e-mail e teve de abandonar a sala privativa que ocupava. A inevitável demissão ocorreu três meses depois. R.F.P., porém, já estava com um novo emprego acertado. Tempos depois, soube que o ex-chefe e um diretor foram dispensados sumariamente e as portas de seus escritórios estavam lacradas. Contrataram auditoria e até a cesta do lixo deles foi investigada. Vamos a algumas considerações sobre a historinha aí de cima. Primeiro, ela acontece com mais freqüência do que se imagina. Segundo, a humilhação desconhece a hierarquia e acontece nos escritórios refrigerados e no chão de fábrica. Terceiro, é a face perversa e oculta das modernas técnicas de produção e gestão que encantam o mundo há mais de 20 anos, quando os japoneses as difundiram pelos quatro cantos do planeta. Uma pesquisa inédita, realizada pela médica do trabalho Margarida Barreto, de São Paulo, revela que essa faceta desembarcou com força surpreendente no Brasil. “O medo e a humilhação tornaram-se um instrumento cotidiano na administração de pessoal”, diz ela. “Isso leva a uma enorme desordem emocional dos funcionários e pode provocar doenças e até o suicídio.” É o império do que ela chama de “toyotismo”, numa referência à montadora japonesa Toyota, pioneira no uso das técnicas de produtividade. Segundo essas técnicas, operários polivalentes, estoques reduzidos, trabalho em equipe e treinamento constante são a base da eficiência. As leis que regem o modelo são baseadas em disciplina férrea, sobrecarga de trabalho e pressão doentia por volumes cada vez maiores de produção. Ao longo de quatro anos, Margarida ouviu 2.047 trabalhadores de 97 empresas de variados tamanhos, origens e setores. Em conversas individuais que duraram, em média, mais de duas horas, ela procurou desvendar os sentimentos que permeiam o ambiente de trabalho nas fábricas e escritórios e as conseqüências sobre a saúde dos funcionários. A pesquisa serviu de base para sua tese de doutorado em Psicologia Social defendida na PUC de São Paulo. O mundo desnudado pelo estudo, batizado de “Uma Jornada de Humilhações”, é uma paulada no mito que mostra o Brasil como um país rumo à modernidade. Quase metade dos entrevistados narravam casos em que foram vítimas de humilhações públicas continuamente. Entre os homens, uma parcela enorme já considerou o suicídio como uma possibilidade. A maioria das mulheres carrega por anos mágoas profundas em virtude dos maus tratos. É um vale-tudo empresarial, no qual qualquer golpe pode ser utilizado – dos berros ao rebaixamento de função, das grosserias às acusações infundadas. A
raiz desse estado de coisas, segundo Margarida, está nos profundos cortes
de pessoal patrocinados pelas empresas, sobretudo ao longo da década de
90. Todas as 97 companhias participantes da pesquisa reduziram os quadros
de funcionários em pelo menos 30% nos últimos anos. Os sobreviventes
passaram a trabalhar muito mais, seja pelo acúmulo de tarefas, seja pelo
medo de perder o emprego. O bancário R.Z., 30 anos, sente na pele essa pressão. “Sou responsável pela instalação de programas nos computadores das empresas que são clientes do banco”, conta ele. “Em ritmo normal, é possível fazer entre duas e três visitas por dia.” Mas o ritmo já não é normal. “Agora, deixamos de almoçar para visitar até cinco clientes, fora o trabalho nos fins de semana”, queixa-se. Se algum empregado pergunta se é obrigado a trabalhar aos sábados, a resposta do chefe é quase sempre a mesma: “Obrigado não é, mas se não trabalhar a coisa vai ficar feia para você”. As mulheres, diz o estudo, são alvos preferenciais da humilhação. Dos 870 entrevistados que sofreram constrangimentos, 57% são do sexo feminino. Entre elas, as principais reações à situação são, segundo suas próprias palavras, tristeza, mágoas “que ficam” e crises de choros constantes. A operária C.P., de 51 anos, está a caminho do divã de uma analista. Será mais uma tentativa de se livrar de uma depressão provocada pelos maus bocados que viveu em uma empresa multinacional do setor de embalagens plásticas. “O primeiro dia de trabalho foi o mais feliz da minha vida”, diz ela. “Eu me sentia a pessoa mais importante do mundo por trabalhar em uma companhia estrangeira.” Depois de quatro anos, o sentimento era outro. “Eu me sentia diminuída, uma formiguinha.” O primeiro sinal do calvário surgiu quando o chefe do departamento resolveu controlar as idas ao banheiro. “Precisava achar alguém para ficar no meu lugar se quisesse dar uma corrida ao banheiro ou então tomar uma água”, conta ela. Se seu equipamento apresentasse problema, as repreensões eram inevitáveis. E o que era pior: as broncas aconteciam sempre na frente dos colegas, que entendiam perfeitamente a situação. Afinal, todos no departamento, segundo ela, eram vítimas de gritos e humilhações. Sem ter com quem desabafar, às vezes C.P. chorava enquanto operava a máquina. Debaixo de pressão contínua, a saúde começou a fraquejar. Mas o medo era tanto que ela evitava procurar o médico da empresa. Um dia passou mal durante o expediente e desde então, conta, “ficou “marcada”. “Fui afastada para outra função, como se fosse uma espécie de geladeira, mas nem por isso deixei de ser cobrada. Um dia simplesmente me demitiram”, diz. Hoje, ela vive do benefício do INSS. As mulheres são as maiores vítimas, mas os homens sofrem mais. As entrevistas conduzidas por Margarida trazem revelações chocantes. Todos os 376 homens que foram humilhados consideraram em algum momento a possibilidade de cometer suicídio. Cerca de 20% desse total tentou fazê-lo. Entre as mulheres, apenas uma em cada cinco mulheres pensou nisso. “As mulheres choram, lamentam-se, contam seus dramas para a amiga, o parente ou o marido”, diz Margarida. “O homem em nossa sociedade não se queixa, principalmente a respeito de humilhação. Ele é criado para contar vitórias. Freqüentemente nem a esposa sabe o que acontece. Como não fala, ele se isola e ao se isolar sente uma mágoa muito mais intensa. Então ele extravasa de outras formas.” Mais de 60% deles passam a beber, segundo o estudo. Nem sempre a humilhação se dá abertamente. É comum, segundo Margarida, o uso de pequenos artifícios para derrubar o moral dos funcionários. A cantora lírica Márcia Regina Soldi costumava se posicionar nas primeiras fileiras do coral onde trabalhava, devido à sua estatura e ao timbre de voz. Era assim até haver uma desavença com os chefes. A partir daí, ela foi colocada atrás de cantores homens bem mais altos que ela, ofuscando não apenas sua vista, mas sua voz. “Pode parecer pequeno para um leigo, mas é como colocar uma criança num canto de costas para a parede numa sala de aula”, conta ela. “Eu me senti sendo castigada. Foi uma humilhação perante meus amigos.” A dispensa acabou acontecendo em setembro passado. “Apareci para trabalhar e a carta de demissão estava me esperando. Sem justa causa. Apesar de ter trabalhado seis anos no coro, não recebi indenização e eles ainda ficaram me devendo o último mês trabalhado”, diz ela. Quem
ganha com uma sucessão de humilhações? Ninguém, afirma Margarida. Nem
mesmo a empresa, que acaba convivendo com funcionários tensos e, por
isso, mais propensos a erros e desmotivação. Segundo o Hay Group, dos
Estados Unidos, 70% do clima organizacional é atribuído ao estilo
gerencial. Ou seja, o ambiente de um departamento depende principalmente
dos chefes. Outro dado importante: o clima organizacional tem reflexos
variáveis entre 28 e 30% sobre os resultados financeiros de uma empresa.
Talvez este seja o principal argumento para que as empresas derrubem de
vez o império do medo que domina o ambiente de trabalho. Publicada em ISTOÉ Colaboraram Mariana Barbosa e Paula Pacheco
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