Quando
aceitou trabalhar com o diretor-presidente da empresa, Élida Cunha não
esperava que sua vida fosse se transformar num inferno. Embora tivesse
conhecimento de que o novo chefe maltratava outros funcionários, a jovem
secretária resolveu aceitar o desafio. "Era bom para minha carreira e
imaginava que o diretor fosse apenas muito exigente", lembra. Durante os
três primeiros meses, tudo ia muito bem, seu trabalho era praticamente impecável
e foi nesse período que ela marcou seu casamento. Tempos depois, quando Élida
anunciou ao chefe que estava grávida, a relação mudou do vinho para o
vinagre. "Ele passou a me criticar. Ficava ao meu lado dizendo como eu
devia atender o telefone, espalhava para os outros que eu não trabalhava bem
e que, infelizmente, teria de me despedir", relata.
No começo, ela ainda encontrava forças para rebater as críticas, mas seu ânimo
foi desaparecendo à medida que as cobranças ficavam mais intensas e freqüentes.
"Tomava calmantes para trabalhar. Muitas vezes, ele tecia comentários
sobre meu filho que ia nascer. Algo do tipo 'se você é desse jeito, imagine
seu filho como deverá ser'. A implicância foi tanta que acabei acreditando
que era realmente incompetente", recorda. "A gota d'água foi quando
ele me ameaçou fisicamente. Fiquei muito nervosa e, como já estava no oitavo
mês de gestação, pedi minha licença-maternidade." Somente depois de
sair da empresa é que Élida soube que fôra vítima de assédio moral.
Atitudes em que o funcionário se vê intimidado e, muitas vezes, humilhado
caracterizam esse tipo de assédio. "São práticas que individualizam o
problema em uma pessoa, que passa a ser tratada como incapaz ", explica
Margarida Barreto, mestre em psicologia social pela PUC-SP. Para levantar os
problemas que essa situação acarreta ao trabalhador, Margarida realizou uma
pesquisa em 1996 na qual conversou com 2.072 funcionários de 97 empresas de vários
setores. Desses, aproximadamente 40% apresentaram histórias severas de
humilhação no trabalho.
CLIMA
- Numa época em que pululam discursos de qualidade de vida e colaboradores
satisfeitos, esse tema parece não ter cabimento. No entanto, a gestão pelo
medo ainda permeia muitas relações. "Esse clima competitivo, tanto para
as empresas como também para quem trabalha nelas, faz com que tudo passe a
ser meta na organização. Diante disso, muitas vezes a pessoa que está na
chefia não escolhe as melhores estratégias para que seu subordinado alcance
os objetivos. Em alguns casos, o caminho é o da pressão por meio do assédio",
explica Margarida.
Na opinião da psicóloga, há uma manipulação de conceitos como
competitividade e empregabilidade com objetivos definidos: aumentar a
produtividade, quebrar os laços afetivos e manter a sujeição e o silêncio
diante do autoritarismo. "Em algumas empresas, as reuniões começam com
uma análise da situação do país. É como se os trabalhadores devessem
agradecer à 'compreensão empresarial' que tolera seu trabalho naquela
organização", explica.
Os reflexos no profissional são significativos, e vão desde a queda da
auto-estima a problemas de saúde. "Depressão, palpitações, tremores,
distúrbios do sono, hipertensão, distúrbios digestivos, alteração da
libido e pensamentos ou tentativas de suicídios que configuram um cotidiano
sofrido são algumas marcas nefastas desse comportamento", diz Margarida.
Mesmo quem tem alguma estabilidade no emprego não está livre do assédio
moral. No ano passado, a cantora lírica Márcia Regina Soldi ficou afastada
durante um mês das atividades de um coral mantido pelo poder público. Ela
conta que teve uma crise nervosa por causa da pressão que a nova regente
impingia ao grupo. "Éramos cerca de 80 integrantes e ela queria reduzir
o quadro à metade", lembra. Era um processo velado. "Volta e meia,
ela dizia que havia muitos amadores entre nós."
"Crise de empregos é pretexto para
opressão"
Márcia foi
desligada em setembro do ano passado. No mês anterior, recebera uma advertência
por ter se ausentado antes do término de um ensaio. "Quando voltei de
licença médica, recebi uma agenda com os horários dos trabalhos. Percebi
que um deles terminava ao meio-dia, o que me permitia ir ao médico. Pedi para
sair sem atrapalhar ninguém", lembra. No dia seguinte, ela recebeu a
advertência por ter atrapalhado os colegas. "Depois descobri que a minha
agenda era a única diferente do grupo", conta. Boa parte do coral foi
demitida quando retornou das férias, no início deste ano. "Fomos
desligados sem justificativas. Por sermos funcionários públicos concursados,
o processo de demissão é outro", diz.
Buscar na Justiça alguma forma de indenização por assédio moral não é
uma tarefa simples. Até mesmo por não existir uma legislação específica
sobre o assunto. "O Artigo 483 da CLT prevê a rescisão do contrato pelo
empregado em alguns casos, como, por exemplo, quando há cobrança com rigor
excessivo ou quando o empregador pratica contra o funcionário ou pessoas de
sua família atos lesivos à honra e à boa fama", explica Paulo Sérgio
João, professor de direito do trabalho da PUC-SP. "Por analogia, a
pessoa pode buscar essa interpretação. Se provado o assédio, ela tem como
pleitear uma indenização por danos morais. Nesse caso, vale o Artigo 159 do
Código Civil." Como o assédio, muitas vezes, assume um caráter sutil,
João aconselha o assediado a tomar alguns cuidados como guardar bilhetes do
chefe, ter testemunhas e reunir laudos médicos, desde que com nexo sobre o
caso.
Para o prefeito de Iracemápolis, cidade da região de Campinas (SP), João
Renato Pereira, essas situações só ocorrem porque muitas pessoas se sentem
ameaçadas por outras que sejam mais capazes. É dele o primeiro projeto de
lei, aprovado, que proíbe assédio moral em repartições públicas (veja o
quadro abaixo). "Antes da vida pública, ocupava um cargo de chefia em
uma empresa e comecei a me sentir isolado. Para um determinado grupo, eu
representava um perigo", comenta. Pereira acabou pedindo demissão.
"Pensavam que saindo da empresa minha carreira estaria acabada",
diz. Para ele, o assédio só existe porque há uma conivência por parte da
organização. "O chefe nunca está sozinho, há uma diretoria cuidando
dele", opina.
ÉTICA
- Do ponto de vista da organização, as situações de assédio ocorrem por
uma falta de atenção dos dirigentes. É o que explica o professor da
Universidade de Navarra, na Espanha, Joan Fontrodona Felip, especialista em
comportamento humano nas organizações: "É importante ter em conta, na
hora de avaliar a atuação ética da empresa, não apenas os fins almejados
como também os meios utilizados." Segundo Joan, a direção deve ter em
mente que uma companhia não existe só para ganhar dinheiro, mas que é
fundamentalmente uma comunidade. "Uma das finalidades da organização é
o desenvolvimento dos colaboradores, nos aspectos técnico, social e moral. E
o assédio vai contra isso, pois diminui o rendimento (técnico), cria
conflitos entre os funcionários (social) e contra a justiça (moral)."
Joan sugere algumas medidas para evitar esse tipo de problema. Uma delas cabe
ao próprio governo, criando leis que proíbam esse tipo de conduta, a exemplo
do que acontece em alguns países da Europa, como a Suécia, onde o assédio
é considerado crime desde 1993. Para as empresas, ele aconselha a criação
de códigos de comportamento, que deixem clara a postura da companhia sobre
essas condutas. A fim de que essa medida dê resultados, Joan aconselha,
ainda, a criação de comitês de ética, entidades capazes de ajudar não
apenas os assediados, como também outros que conheçam a situação e que
queiram denunciá-la, em vez de adotarem a postura cômoda de não interferir.
"A possibilidade de perder o emprego e de não encontrar outro é um
fator que influi para que a pessoa assediada não denuncie a situação. Por
isso, é importante criar mecanismos que permitam a exposição desses fatos.
A responsabilidade de a empresa fazer com que isso seja exposto é tão maior
quanto menor a possibilidade de mudar de trabalho", acrescenta.
"Quando existe uma política de valores bem definida, esse tipo de situação
não é freqüente", analisa Milton Maretti, vice-presidente de RH para
América Latina e Brasil da Kodak. Para ele, muito mais do que uma série de
fatos humilhantes e insidiosos, o assédio resume-se à falta de respeito.
"A partir do momento em que esses valores são claros para todos os
funcionários, cada um vai cobrar do outro esse respeito", acrescenta.
Há um ano, explica Maretti, a Kodak desenvolve uma campanha nesse sentido.
"A cada três meses, destacamos um valor, criamos cartazes e organizamos
concursos de frases para que cada um possa expressar o que entende sobre ele.
Essa discussão é estendida para a família do colaborador. Isso ajuda a cada
um conhecer seus limites em relação ao outro e cria uma expectativa de
conduta", explica. Paralelamente a esse projeto, a empresa também mantém
uma política de "portas abertas" contra todo e qualquer tipo de assédio.
SIGILO
- Por meio desse programa, os funcionários podem procurar o chefe do chefe ou
o RH para denunciar qualquer problema. "Garantimos sigilo e verificamos
se a informação procede. Em caso afirmativo, a punição tem de ser
exemplar, como já aconteceu. A pessoa foi demitida. Alguém que começa a
agir assim demonstra falta de integridade." Segundo Maretti, o objetivo
da Kodak é querer todos os funcionários de corpo e alma na empresa.
"Isso significa estar motivado e para tanto não pode haver coação."
Nesse sentido, o profissional de RH tem de criar mecanismos para que as
pessoas não se sintam mal em um ambiente de alta produtividade. "É
preciso coragem para não se deixar levar por qualquer tipo de pressão e
buscar a punição mais adequada."
A política de "portas abertas" adotada pela Kodak no Brasil foi
criada pela matriz nos EUA. Essa característica de importar mecanismos de
defesa contra assédio é relativamente comum, conforme explica a diretora da
DPS Consult, Adelaide du Plessis: "Lá fora, a questão do assédio é
discutida há mais tempo. Muitas empresas multinacionais já encontraram
formas de evitá-lo e estendem suas políticas para unidades em outros países".
Na avaliação de Adelaide, a tendência de as empresas valorizarem cada vez
mais o trabalho em equipe contribui para diminuir esse tipo de conduta.
"O líder tem de ter uma relação amigável com todos. O gestor que
tratava mal, que era autoritário, vem perdendo espaço." E mesmo quando
esse chefe mantém sua posição, corre o risco de ter sua imagem
comprometida. "No processo de avaliação de um executivo, várias
pessoas são ouvidas. Se existe um comportamento errado, isso tende a aparecer
e afetar a carreira dele."
A consultora alerta ainda para as empresas muito hierarquizadas. "Essas
tendem a concentrar mais o poder nas chefias. Antigamente, as empresas tinham
uma hierarquia mais forte e marcada por uma relação quem-obedece-a-quem.
Hoje, esses níveis são mais flexíveis, há uma relação mais aberta."
O que não deixa de ser bom, inclusive para o negócio. Uma pesquisa realizada
pela consultoria americana Hay Group mostra que 70% do clima organizacional é
atribuído ao estilo gerencial e os reflexos variam entre 28% e 30% nos
resultados financeiros da empresa. Portanto, chefinho, muita calma nessas
horas.
Sinais
da humilhação
· Começar reunião sempre amedrontando quanto ao desemprego ou ameaçar
constantemente com a demissão.
· Exaltar-se e chamar todos de incompetentes.
· Repetir a mesma ordem para realizar uma tarefa simples ou dar ordens
confusas e contraditórias.
· Sobrecarregar de trabalho ou impedir a continuidade do trabalho, negando
informações.
· Desmoralizar publicamente, ou até elogiar, mas ressaltando que o trabalho
é desnecessário à empresa ou instituição.
· Mandar executar tarefas acima ou abaixo do conhecimento do trabalhador.
· Sugerir que peça demissão, por sua saúde.
· Divulgar boatos sobre sua moral.
Fonte: www.assediomoral.org
Medidas
anti-assédio na legislação
Os cerca de 350 funcionários municipais de Iracemápolis podem ficar mais
sossegados em relação a assédio moral. Essa é a primeira cidade a ter uma
lei que proíbe esse tipo de situação nas repartições da prefeitura.
Criado pelo atual prefeito, na época vereador, João Alves Pereira (PT), a
medida prevê advertência, suspensão e até demissão de quem manifestar
esse tipo de conduta. A idéia do projeto, aprovado em abril de 2000, teve
origens em duas situações de ordem prática, segundo Pereira. "Senti na
pele esse problema quando trabalhava em uma empresa. Ao assumir meu mandato,
pude presenciar que uma de nossas funcionárias passava por isso."
Nessa época, Pereira inspirou-se em um projeto contra assédio moral proposto
na Câmara paulistana pelo petista Arselino Tatto. "Trata-se de uma violência
que temos de coibir em todas as organizações, públicas ou não",
afirma. "E o que é pior: muitas pessoas se omitem diante desse fato.
Isso me assusta, pois é outro tipo de violência."
Para Arselino Tatto, iniciativas como essa ajudam para que haja debate sobre o
tema. "Muita gente já foi assediada moralmente. No entanto, tinha
dificuldade em dar nome e causa a esse mal. Com essas medidas, a punição
deve começar a acontecer de fato e, o melhor, vai obrigar as empresas e
repartições públicas a não permitir o jogo do vale-tudo no ambiente de
trabalho", acredita. Ele lembra, ainda, que um projeto similar já está
na Câmara Federal, encaminhado pela deputada Rita Camata (PMDB/ES).
Retrato
falado
Nas entrevistas que realizou, a psicóloga Margarida Barreto reuniu algumas
características sobre os vários tipos de chefe:
Profeta:
sua missão é "enxugar" o mais rápido possível a "máquina".
Refere-se às demissões como a "grande realização da sua vida".
Humilha com cautela. As testemunhas, quando existem, são seus superiores.
Pit-bull:
é agressivo, violento e perverso em palavras e atos. Demite friamente e
humilha por prazer.
Troglodita:
é o chefe brusco, grotesco. Implanta as normas sem pensar e todos devem
obedecer sem reclamar. Sempre está com a razão.
Tigrão:
esconde sua incapacidade com atitudes grosseiras e necessita de público que
assista a seu ato para sentir-se respeitado e temido por todos.
Mala-babão:
é aquele que bajula o patrão e não larga os subordinados. Persegue e
controla cada um com "mão de ferro". É uma espécie de capataz
moderno.
Grande
irmão:
aproxima-se dos trabalhadores e mostra-se sensível aos problemas particulares
de cada um. Na primeira oportunidade, utiliza esses mesmos problemas contra o
trabalhador para rebaixá-lo, demiti-lo ou exigir produtividade.
Garganta:
não conhece bem o seu trabalho, mas conta vantagens e não admite que seu
subordinado saiba mais do que ele. Submete-o a situações vexatórias, como,
por exemplo, colocá-lo em tarefas acima do seu conhecimento ou inferior à
sua função.
Tasea
("Tá se achando"): confuso e inseguro, esse chefe esconde seu
desconhecimento com ordens contraditórias. Exige relatórios diários que não
serão utilizados. Se algum projeto é elogiado pelos superiores, colhe os
louros. Em caso contrário, responsabiliza seus subordinados pela
"incompetência".
Frases
freqüentes
- É melhor você desistir! É muito difícil e isso é para quem tem garra!
- Seu filho vai colocar comida em sua casa? Escolha: trabalho ou filho!
- Pessoas como você... Está cheio aí fora!
- Seu trabalho é ótimo, mas a empresa neste momento não precisa de você!
- Um currículo tão extenso e você não consegue fazer algo tão simples?
- Vou ter de arranjar alguém com boa memória porque você esquece tudo!
- A empresa não precisa de incompetente igual a você!
Fonte: www.assediomoral.org
O
que a vítima deve fazer em caso de assédio
· Anotar com detalhes todas as humilhações sofridas.
· Dar visibilidade, procurando a ajuda de colegas, principalmente daqueles
que testemunharam o fato.
· Exigir, por escrito, explicações do ato agressor e permanecer com cópia
da carta enviada ao RH e da eventual resposta do agressor.
· Procurar seu sindicato e relatar o acontecido para diretores e outras instâncias
como: médicos ou advogados do sindicato assim como: Ministério Público,
Justiça do Trabalho, Comissão de Direitos Humanos e Conselho Regional de
Medicina.
· Recorrer ao Centro de Referência em Saúde dos Trabalhadores e contar a
humilhação sofrida ao médico, assistente social ou psicólogo.
· Buscar apoio junto a familiares, amigos e colegas, pois o afeto e a
solidariedade são fundamentais para a recuperação da auto-estima,
dignidade, identidade e cidadania.
Fonte: www.assediomoral.org