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Sexo no trabalho
Os perigos, as confusões, as delícias

São dez, doze horas diárias no escritório. E, entre uma tarefa e outra, você repara que o colega engravatado é bem charmoso. Quantos homens e mulheres têm feito sexo no trabalho? Muitos. O desafio é lidar com as conseqüências que isso traz para a carreira.

Joyce Moysés e Katia Cardoso

  A vendedora Ana* namorava seu supervisor. Quando ele abriu o jogo com a diretoria sobre a sua paixão, perdeu o emprego e ainda colocou em risco o posto da subordinada. "Queriam me penalizar", conta Ana. "Então, ameacei espalhar pela empresa todos os casos amorosos que conhecia." A estratégia, embora perigosa, deu resultado. A gerente comercial Rosana também sofreu por causa de um romance no escritório. "Contratei um assistente bonito, inteligente e de quebra solteiro. Rolou um clima e namoramos às escondidas por seis meses. Meu diretor, desconfiado, mandou-o embora. Fiquei revoltada, mas não pude impedir. E o episódio respingou na minha reputação dentro da fábrica. Acabei marcada por misturar sedução com trabalho."

O que ocorreu com os dois casais não foram fatos isolados. Embora boa parte dos empregadores mantenha o discurso da liberalidade, na prática nem sempre é assim. "Essa questão não é tão discutida no Brasil quanto nos Estados Unidos, onde as empresas têm uma política interna bem definida, principalmente por medo do assédio sexual", afirma a consultora de carreiras Elaine Saad, diretora da Right Saad Fellipelli. Aqui, as poucas organizações que têm uma orientação clara são as que proíbem o relacionamento. Nas outras, predomina a ambigüidade.

 Pesquisa realizada pela sexóloga americana Shere Hite, autora do livro Sexo e Negócios (Editora Bertrand Brasil), com 790 profissionais americanos e europeus constatou: sete em cada dez homens já tiveram, alguma vez, um envolvimento sexual na empresa e seis em cada dez mulheres também. Segundo ela, 42% dos funcionários afirmaram estar vivendo affairs com colegas. Não há dados estatísticos sobre o assunto no Brasil, mas é evidente que os casos de paixão no local de trabalho também são comuns por aqui. "A mulher entrou com tudo no mercado, responde por 40% da mão-de-obra ativa no país, segundo o IBGE", lembra Ailton Amélio da Silva, professor de relacionamento amoroso do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. E 67% da população feminina entre 20 e 29 anos é solteira. "Além disso, passa-se a maior parte do dia trabalhando: logo, é natural que a vida afetiva e sexual comece a girar em torno desse ambiente", ele argumenta. Isso não significa, porém, que todo mundo, inevitavelmente, vai manter relacionamentos íntimos no escritório só porque convive diariamente e tem projetos em comum. "Não é esperado, mas facilita", diz a psicoterapeuta Ana Fraiman, que presta consultoria em desenvolvimento pessoal para grandes empresas.

Agora... e os riscos para a carreira? "Como nunca, a mulher está preocupada com o desenvolvimento profissional. Nesse sentido, ao se envolver sexualmente com outro funcionário, ela pode estar arrumando mais um obstáculo para superar na sua jornada", alerta a expert em carreiras Elizabeth Martins. "Dependendo de onde trabalha, sua competência talvez seja questionada, por ter cometido o 'pecado' de misturar emoções com negócios. Ainda vivemos numa sociedade machista, com o predomínio dos homens na cúpula das organizações, fato que lhes oferece maior proteção. Trocando em miúdos, a corda costuma romper no lado mais fraco." Claro, nem sempre os romances corporativos têm final infeliz - vide aqueles bem resolvidos, com casamento e a continuidade no mesmo emprego -, mas é bom saber o outro lado da moeda antes de decidir cair nos braços do colega pra lá de charmoso.

Namorar o(a) chefe, não! Se as investidas sexuais envolvem relações de poder, a coisa complica. "Romance entre chefe e subordinado interfere nos resultados do trabalho, sim. Para o superior, fica difícil manter a imparcialidade na hora de julgar atos, ações e tomar decisões", afirma a psicóloga Ivete Lehman, da Universidade de São Paulo. Por isso, muitas instituições fazem restrição apenas a esse tipo de relacionamento, admitindo arroubos hormonais entre colegas. "É para manter o nível de competência do grupo. Senão, quem vai garantir que as promoções serão por mérito, e não por favorecimento sexual?", pergunta Ivete.

De acordo com a psicóloga, a reação do grupo pode ser dura, cruel até. Surgem as fofocas, os comentários maldosos e as insinuações. Como no ambiente profissional há uma luta constante pelo poder, os casos têm repercussão bastante negativa. "Se os profissionais forem de áreas distintas, tudo bem. Caso contrário, um dos dois tem que mudar de setor ou sair da companhia", reforça Andréa Marquez Fontes, diretora de desenvolvimento organizacional da Visanet, que centraliza as operações com cartões Visa no Brasil. Os empregados da Multibrás, fabricante dos produtos Brastemp, lêem pela mesma cartilha. "É comum termos namorados e marido e mulher na empresa, mas com uma das partes realocadas em outra área. Dessa maneira, não há conflitos de interesse ou tráfico de influência", explica Déia Gorayeb, diretora de recursos humanos.

 A recomendação geral dos consultores é revelar o romance à chefia direta. "Se mantiver segredo, quando o assunto vier à tona será com a força da fofoca, o que gera mal-estar e desentendimentos", avisa Elaine Saad. Mas o medo da repercussão para a carreira faz com que muita gente prefira escondê-lo. A assistente técnica Cléia Gandolfi manteve em segredo seu romance por quatro anos e meio com o programador de produção Alexandre Tayar, seu colega na Arno. "Contamos apenas um pouco antes do casamento, porque não dava mais para omitir. Até então, sempre mentíamos quando as pessoas perguntavam sobre o fim de semana", comenta Cléia.

Já Daniela Garcia, gerente de novos negócios da Giusti Loducca, empresa direcionada para a construção de imagem, seguiu a orientação dos consultores. Optou pela transparência quando, em outro emprego, se envolveu com um cliente. Detalhe: ele era noivo e ela separada. Dos almoços de negócios, a dupla evoluiu para jantares, troca de e-mails e, por fim, o namoro. "Não só abrimos o jogo internamente sobre o relacionamento como pedi para ser afastada da conta. Fomos francos para evitar comentários de que um estava tentando ajudar o outro, tirando proveito da situação. Hoje, atuamos no mesmo ramo, então fazemos questão de manter o sigilo para assuntos estratégicos", conta ela.

Mesmo que a empresa onde você trabalha não veja com maus olhos relacionamentos entre funcionários, a consultora de marketing pessoal Esther Proença Mendonça sugere certas medidas preventivas:

  Evite olhares apaixonados, sorrisos, apelidos íntimos e beijinhos no ambiente da empresa. Lá, sua preocupação deve ser o trabalho. Namoro é bom da porta pra fora.
Não comente com colegas o que vocês fazem fora do ambiente de trabalho. Só diz respeito aos dois.
Não crie situações para ficar sozinha com o amado nem monopolize a atenção dele, por exemplo, criando obstáculos para que almoce com o chefe ou com os colegas.
Fuja dos bilhetes e das declarações de amor pela caixinha ou por e-mail. Imagine se caem nas mãos erradas...
Controle o ciúme. Uma cena nessa linha vai transparecer insegurança e desequilíbrio de sua parte.
Não se pendure no telefone. Seja sucinta e objetiva.
Dispense a ele a mesma atenção que dá aos colegas.
Conversem sobre a possibilidade de um dos dois procurar emprego, caso um seja chefe do
outro.