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Se espirrar... saúde!

O ilustre leitor, inteligente e perspicaz, perceberá rapidamente que esta humilde reportagem fala de algo presente em nosso cotidiano das mais diversas formas. Sentiu-se bajulado pela frase anterior? Era essa, ainda que de forma exagerada, a intenção do autor. Mas o que interessa mesmo é outra pergunta: apreciou ser bajulado? Não se acanhe em dizer que sim. "Todo mundo gosta de um elogio", afirmou o presidente americano Abraham Lincoln (1809-1865). "É assim que a bajulação funciona: nós temos uma fortíssima propensão a acreditar naquilo em que queremos acreditar", explica o jornalista Richard Stengel, autor de Você é o Máximo! - A História do Puxa-Saquismo (Editora Campus).

É preciso tomar especial cuidado com adjetivos em um texto sobre o assunto, mas também é obrigatório reconhecer que o livro de Stengel - ex-editor da revista Time e ex-colaborador de publicações de prestígio como The New Yorker e The New Republic - proporciona uma inusitada análise da natureza humana sob a perspectiva da bajulação (em inglês, flattery). A editora acertou ao usar na capa o termo "puxa-saquismo", já consagrado pela língua (veja o boxe A origem do vocábulo).

"Convenciona-se que, se a palavra já está dicionarizada, seu uso é pleno", afirma Welington Andrade, professor de língua portuguesa.


Stengel toma o cuidado de diferenciar o "puxa-saquismo" do elogio sincero. "A bajulação funciona como um míssil guiado pelo calor; a diferença é que esse míssil busca a nossa vaidade", compara. Segundo ele, trata-se de um "elogio estratégico", dotado de propósito, que "busca algum resultado, seja maior simpatia ou um escritório com janela". Um tipo de "manipulação da realidade" que tira proveito da "valorização de outrem para o benefício próprio". Existem situações, lembra ele, em que a bajulação é compulsória. "A noiva é sempre linda, o falecido sempre foi um bom sujeito. Se vamos ao vernissage de um artista, temos de lhe dizer algo lisonjeiro. Se visitamos alguém que acaba de ter um filho, espera-se que digamos que a criança é uma gracinha. Nessas ocasiões, não dizer nada é interpretado como grosseria; a falta do elogio salta aos olhos por sua própria ausência."

LUBRIFICANTE - Agimos dessa forma, sustenta ele, porque compreendemos que a bajulação nessas circunstâncias é "o lubrificante necessário ao bom funcionamento das engrenagens da civilização". "Sem isso, teremos, nas palavras do sociólogo Erving Goffman, o caos na sala de visitas. A estabilidade social depende de um certo grau de dissimulação. Precisamos ter um rosto sempre preparado para os outros rostos que vamos encontrar", afirma. Outra tentativa de definição: a bajulação seria um tipo de propaganda na qual a informação é "intencionalmente tendenciosa", espécie de máscara "que protege e valoriza o bajulador ao mesmo tempo que valoriza também a pessoa bajulada".

O livro distingue também categorias de bajulação. "Pode ser um presente dado mais ou menos gratuitamente, sem expectativa de retribuição, ou pode ser uma propina dada na esperança de alguma vantagem. A primeira é inofensiva e pode até fazer algum bem; a última, no fundo, não passa de uma estratégia, e o objetivo pode variar de um mero desejo de ser agradável até um desejo mais capcioso de prejudicar a pessoa a quem aparentemente estamos ajudando. Se a bajulação for uma propina, quase sempre ela é do tipo que estamos dispostos a aceitar. Se bajular fosse crime, o receptor seria sempre um cúmplice inimputável."

Stengel lembra que o filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831) escreveu sobre o "heroísmo da bajulação", em referência ao indivíduo que "tinha finalmente percebido a hipocrisia essencial da sociedade e, graças à sua coragem, tinha compreendido que era preciso participar disso para sobreviver", o que "dava à pessoa mais liberdade e a transformava num competidor mais habilidoso para o jogo da vida". A demagogia, por outro lado, seria uma "bajulação do povo". E tudo isso começou, segundo a análise bem-humorada de Stengel, com os chimpanzés, que "não podem dizer 'adoro seu pêlo', mas afagam e limpam os pêlos uns dos outros o dia inteiro por razões estratégicas". Onde há uma hierarquia social, observa o autor, há bajulação, porque "ela é uma técnica para se alcançar um status mais elevado".

Conclui-se que o ambiente de trabalho, hierarquizado por excelência, é campo fértil para a proliferação de bajuladores e bajulados. "Para alguns, 'puxar o saco' de alguém é como uma maneira de agradecer ao seu 'tutor' por um êxito alcançado na carreira profissional", afirma Víctor Martínez, CEO da Thomas International Brasil. "É claro que esse agradecimento deve ser bem dosado e não utilizado o tempo todo. Caso contrário, ninguém mais leva o bajulador a sério. Sua atitude começa a ser encarada por todos, bajulado inclusive, como uma maneira desagradável de tentar agradar para subir na carreira."

"Bajulação pode também servir para motivar subordinados"

Martínez reconhece a existência de chefes que incentivam a bajulação em torno deles, mas recomenda que essa "massagem de ego" seja evitada a qualquer custo. "Uma maneira prática de fazê-lo é tentar reconhecer a validade dos comentários a seu respeito: 'Será que todos pensam assim ou só quem o diz?', 'Qual o comportamento da pessoa com os outros chefes?' e, finalmente, 'Valia a pena isso ser notado?'. Se tem uma coisa que o bajulador gosta de fazer, é ressaltar as mais inóspitas e escondidas virtudes de seu bajulado, como o jeito tão preciso e eficaz em que estaciona o carro na vaga reservada da garagem."

O jornalista Carlos Dias, chefe de redação do jornal A Gazeta Esportiva, afirma que a bajulação lhe causa medo. "Começo a achar que a pessoa na verdade pensa o contrário do que diz", explica. Ex-editor da revista Veja e do Jornal da Tarde, ele tem hoje cerca de 140 subordinados diretos e indiretos. "Já precisei bajular alguns deles para que simplesmente cumprissem a obrigação. É uma bajulação racional, premeditada, para agradar o ego da pessoa e torná-la mais disposta a trabalhar, como se fosse um pagamento adiantado. Se ela está desanimada e precisa de estímulo, doso o elogio, como um bônus antecipado, e quem sabe na frente ela confirma a expectativa."

A situação é muito diferente quando um profissional reconhece um colega de mesmo nível hierárquico praticando a bajulação - e, pior, supostamente se beneficiando disso, em detrimento de "não-bajuladores". "Há três meses, minha monitora me chamou para dizer que meus superiores estavam gostando do meu desempenho e que eu era cotada para monitorar uma nova turma de atendentes", conta Juliana Figueiredo, que trabalha em uma empresa de telemarketing. "O único empecilho, segundo ela, era minha timidez. Chegou ao cúmulo de sugerir que eu puxasse mais o saco da minha supervisora. 'Assim as coisas ficarão mais fáceis', disse."

"Elogio estratégico é o míssil do puxa-saco"

Juliana recorda que se esforçou: passou a dar bom-dia para a supervisora todas as manhãs e chegou a presenteá-la com doces caseiros. "Mas desisti porque essas atitudes me agrediam internamente, não fazem parte da minha personalidade. Trato bem todas as pessoas com quem trabalho, mas não levo jeito para bajuladora", lamenta. Tempos depois, uma de suas colegas foi promovida para a vaga de monitora. "No quesito puxa-saco, ela é nota 10", afirma. Pode parecer incrível, mas há quem admita sem nenhum problema usar a bajulação como ferramenta no ambiente de trabalho, como a agente de viagens Adriana Silva. "Considero-me uma puxa-saco light, do tipo que não prejudica ninguém para conseguir o que quer", diz. "Sei que meu chefe adora ser bajulado, e faço de tudo para agradá-lo. Quando quero sair mais cedo, por exemplo, compro bombons para ele. Trufas de chocolate são os preferidos. Já consegui várias coisas assim, inclusive um aumento de salário." Humano, demasiado humano. O querido e ilustre leitor tem alguma brilhante contribuição a fazer?

Conselhos para o puxa-saco

O consultor Mauro de Oliveira resolveu propor alguns "conselhos" para o funcionário puxa-saco durante um treinamento que ministrava. "Sabe aquelas brincadeiras dos intervalos? Foi numa delas que inventei a lista." Sua intenção era criticar, com humor negro, a postura de pessoas que observou em seus 40 anos de experiência profissional.

1. O chefe não tem chefe. Abaixo dele vem Deus, com todas as imperfeições.
2. Quando o chefe vier com uma roupa reformada, pergunte em qual loja comprou.
3. Nunca diga "meu chefe". Ele poderá pensar que é apenas seu.
4. Quando andar no carro velho do chefe, diga: "Já não se fazem mais carros como antigamente".
5. O chefe não erra. Os outros é que se enganam ou não têm capacidade de entendê-lo.
6. A mãe do chefe, se morta, é uma santa; viva, é uma fábrica de gênios.
7. O chefe não é magro, é esbelto.
8. O chefe não é gordo, é saudável.
9. Nunca compare o chefe a desconhecidos, como George W. Bush ou João Paulo II.
10. O chefe nunca esqueceu de fazer. Mudou de idéia.


A origem do vocábulo

O Bajulador, no início do século, era conhecido em algumas regiões do Brasil como "pega-na-chaleira". O termo foi popularizado graças à marcha Gargalhada, de Eduardo Neves, e teve origem no poder exercido pelo senador gaúcho Pinheiro Machado. Dizia-se que, para agradá-lo, era preciso subir até sua casa no Morro da Glória, no Rio de Janeiro, e pôr água fervendo no seu chimarrão. Em 1945, os Anjos do Inferno gravaram a marcha O Cordão dos Puxa-Sacos, de Roberto Martins e Erathóstenes Frazão. Apesar da censura, a marcha fez sucesso no carnaval do ano seguinte. Seu refrão "o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais" é conhecido ainda hoje."Puxa-saco" era uma gíria militar usada para designar os soldados que carregavam a bagagem de seus superiores, então acondicionada em sacos. Como estabelece a hierarquia, cumpriam a tarefa humildes e obedientes.