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Conhecimento cínico e clínico

Paulo Sternick - Psicanalista

 Muita gente imagina que o conhecimento é um de nossos bens mais supremos e que a posse dele garante ações certas e benéficas. A valorização talvez decorra, entre outros fatores, do fato de que o uso da mente inteligente ainda é algo muito novo na historia do Universo e que o ser humano é o único da espécie animal com capacidade de acumular conhecimento. Não há duvida de que a posse do conhecimento abre muitas portas e constitui um ponto de partida favorável em inúmeras situações. Mas de jeito nenhum podemos garantir que saber das coisas é sempre algo que conduza o homem positivamente.

O sociólogo Pierre Bourdieu, por exemplo, se refere a dois usos distintos do saber, que chamou de cínico e de clinico. Vemos, então, que alem do conhecimento, precisamos da ética: de que maneira alguém que detém a posse do conhecimento vai usa-la? Um exemplo em moda na ciência: qual será o destino do mapeamento do código genético ou das manipulações genéticas? E o que dizer dos saberes daqueles que exercem a política  e administração publica? Quando o conhecimento se refere à sociedade, um dos mais argutos pensadores da atualidade, Zygmunt Bauman, explica: Ö saber pode ser usado de forma cínica. Sendo o mundo o que é, pensemos numa estratégia que me permitira utilizar suas regras para tirar o Maximo de vantagem; quer o mundo seja justo ou injusto, agradável ou não, isso não vem ao caso. Quando é usado clinicamente, esse mesmo conhecimento do funcionamento da sociedade pode nos ajudar a combater o que vemos de impróprio, perigoso ou ofensivo a nossa moralidade.

Na psicanálise, nos surpreendemos também com a falta de garantia de que o conhecimento seja invariavelmente positivo. Também aqui temos questões éticas serias, e os usos cínico e clínicos: basta-nos recordar, quanto ao uso cínico de profissionais inescrupulosos, capazes de usar conhecimento sobre a natureza humana para manipular – para seu interesse – pessoas e grupos. Ou o emprego de supostos saberes sobre o inconsciente e da manipulação de termos psicanalíticos como forma de exercer poder explicativo sobre o comportamento adverso dos outros, a fim de mais bem adequá-lo ao que se espera.

Mas a discussão do conhecimento na psicanálise é mais complexa. Aqui estamos num terreno onde o conhecimento muitas vezes é ilusão e imaginação – e não verdade. Muita coisa que conhecemos de nos mesmo não passa de aparência. Por isso, uma psicanálise demora tempo: não se trata de conhecimento intelectual, racional. Será necessária uma vivencia emocional e mentalmente mais profunda dos fatores que estão alem de nosso dizer consciente. Como sabem, para a psicanálise, somos muito mais inconscientes de nos mesmos do que poderíamos ou gostaríamos de imaginar. Por isso, Freud se referia ao nosso Eu como um palhaço tolo que se intromete em tudo no circo para que os espectadores pensem que é ele quem dirige tudo o que ocorre.

E o próprio conhecimento de nossos fatores – ou melhor, de nossas disposições – inconscientes pode ter um destino cínico ou clinico dado por nos. Há muito que dizer sobre isso, mas vou dar um exemplo: há’pessoas que dizem cinicamente ter feito algo inconscientemente, como se o fato de faze-lo assim demolisse sua responsabilidade. Ao contrario, o inconsciente somos nós. Por isso, necessitamos fazer um uso clinico desse saber, estar reverente e alertadamente conscientes de que estamos sujeitos a um Outro em nós que, embora nos escape, no entanto nos move.