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TEXTOS SELECIONADOS ALTERNATIVA RH |
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Uma
força contra a crise A meditação
ultrapassa a fronteira do esoterismo e vira ferramenta para enfrentar as
pressões da vida cotidiana GISELE
VITÓRIA E LIANA MELO
O relógio
marca 12h25. O diretor-geral dos laboratórios Valda, Hugues Ferté,
pede licença e interrompe uma reunião com o presidente mundial da
Canonne – grupo que produz as pastilhas Valda –, o francês
Christian Canonne, e com consultores da empresa de auditoria Ernest
& Young. Alega ter um compromisso inadiável às 12h30. Numa sala na
sede da empresa, no Rio de Janeiro, 14 pessoas o esperam. O diretor
entra em silêncio, afrouxa a gravata e liga o som. Uma música suave
começa a tocar. Todos se sentam em grandes almofadas coloridas, descalços
e de pernas cruzadas. Fecham os olhos, respiram fundo e meditam por meia
hora. Há seis anos esse ritual se repete diariamente. Instituída na Canone com o sisudo termo "reengenharia do processo decisório e criativo", o nome pouco importa. O objetivo é fazer com que as pessoas olhem para si e tenham equilíbrio emocional para trabalhar melhor. "A meditação é uma alternativa simples para se atingir um alto grau de eficiência", diz o diretor Ferté. Aos 57 anos, ele não usa terno, só trabalha de branco e rabo-de-cavalo. Praticante desde 1992, construiu um jardim suspenso na empresa e convidou seus 100 funcionários a fazer um curso. "Eles estão mais dispostos e os superiores satisfeitos", diz Ferté. O presidente mundial endossa: "Não tenho razões para me preocupar com a produtividade da fábrica no Brasil". Na prática,
como um exercício espiritual pode ajudar quem vive num ritmo
alucinante? De dentro do pregão da Bolsa de Valores de São Paulo,
Sidney Martins, 43 anos, gerente de operações da Spinelly Corretora de
valores, explica: "Posso gritar no pregão, como todos, sem me
estressar. Medito para suportar a tensão da Bolsa, me manter
equilibrado e trabalhar melhor. Lido com R$ 12 milhões a R$ 30 milhões
por dia e por isso mesmo preciso me manter calmo". Operador da
Bovespa desde 1969, Martins conheceu a meditação em 1986 e não largou
mais. "Antes de sair de casa me concentro e, sempre que posso,
medito no próprio pregão. Fico em silêncio e imagino que estou numa
floresta ou no mar", diz ele. Avelino Gonçalves de Almeida Filho,
diretor da administradora de investimentos Lógica de Mercado, faz
meditação há sete meses. "Agora com essa crise terrível estou
surpreso comigo. Tenho enfrentado a tormenta com fair play". Os benefícios podem ser semelhantes ao de quem desabafa no divã de um analista. Ou até maiores. "Temos camadas que os recursos intelectuais não acessam; a meditação vai além do território analítico", diz Carlos Emediato, consultor de empresas e professor de Educação para a Paz. Emediato, que faz treinamentos de qualidade para psicólogos, consultores e educadores, utiliza a meditação com diversos recursos, como danças circulares, danças de concentração, práticas corporais, contato com a natureza e visualização."Ela é um instrumento potente para harmonizar as nossas diferentes dimensões: a corpórea-sensória, a afetiva-emocional, a intelectual-racional, a intuitiva-imaginativa e a imaginação". É natural que o contato com o próprio íntimo amplie o autoconhecimento e revigore a disposição. "Ao contrário do que pensam, meditação não deixa ninguém mais calmo. A percepção e a sensibilidade aumentam e a pessoa fica mais ativa", diz o engenheiro Ricardo Corradini, 43 anos, que pratica meditação desde 1990. "Passei a me conhecer melhor e a tomar decisões mais rápido." O funcionário da Telesp, Walter Morales, 31 anos, meditador há quatro anos, também tem muito que agradecer à prática. Operador de computador da companhia telefônica, atende assinantes que usam o site da Telesp para verificar suas contas. "Há quatro anos eu parecia um robô falando com o público. Agora, mando um abraço, atendo com gentileza. Outro dia uma assinante até me chamou para um churrasco". Morales pratica meditação ativa, inspirada no mestre indiano Osho, técnica pouco ortodoxa. "Foi uma surpresa quando disseram que eu tinha que dançar loucamente por 40 minutos". Surpresa
parecida tiveram os funcionários do Playcenter. Após uma pesquisa com
1.600 visitantes, a equipe de recursos humanos criou um programa de
sensibilização para melhorar o atendimento ao público. Os 2.500
funcionários do grupo viveram a experiência de olhar para dentro de si
mesmos a fim de tratar melhor o próximo. Foram usadas técnicas de
teatro, circo e meditação. "Não atendemos bem o outro se não
estamos bem. Quem pegou três ônibus para chegar ao parque corre o
risco de descarregar seu stress no visitante", explica Leni Hidalgo
de Toledo, diretora de desenvolvimento organizacional da empresa. Dos
funcionários que ligam os brinquedos aos da limpeza, todos vivenciaram
a experiência de gritar, dançar ou relaxar no horário de trabalho.
"Eles chegaram desconfiados e retraídos. Pedia para mexerem os
quadris, mexiam os ombros. Mandava gritarem, as vozes não saíam",
conta a atriz Geórgia Corrêa, coordenadora do Teatraria-Espaço Ativo
de Criatividade, em São Paulo, que deu o curso de teatro e meditação
em São Paulo. "Mas usei o universo deles: ‘Por que todos gritam
na montanha-russa? É para extravasar as emoções. Pois então façam
isso!’ Aí foi incrível". Geórgia também fez cada um inventar
um idioma para reclamar. A diretora Leni acredita que os funcionários
foram mobilizados. No Espaço Sol Lua de Autoconhecimento, em São Paulo,
meditar pode ser pular e rodopiar loucamente ao som de uma música
indiana até entrar numa espécie de transe. Ex-seguidor do mestre
Rajneesh (senhor da lua cheia) ou Osho (o bem-amado), polêmico líder
espiritual indiano morto em 1991 e um dos criadores das meditações
ativas, o ex-ator e terapeuta Jovelty Archângelo, também chamado de
Kamal, ensina meditação com vibrantes movimentos corporais.
"Respire tão depressa quanto puder... Exploda, deixe o corpo
assumir o controle. Enlouqueça completamente. Cante, urre, gargalhe,
pule. Não deixe a mente interferir. Pare 15 minutos na posição que
estiver. Perceba o que está acontecendo", diz um trecho do roteiro
da meditação dinâmica, uma das nove que ele aplica. "As pessoas
chegam aqui agitadas. Nada mais apropriado do que começar a meditação
com muita energia para cansar o corpo e descansar a mente", diz
ele. "As pessoas vêm aqui à procura de si próprias", diz. Os benefícios da meditação têm sido investigados pela ciência.
"Pesquisas científicas a tornaram mais aceita", diz Kleber
Tani, presidente da Sociedade Internacional de Meditação no Rio de
Janeiro. Segundo ele, estudos mostram que o nível de relaxamento
durante a meditação é de seis a oito vezes maior do que durante o
sono. Além disso, o dispêndio de oxigênio pode diminuir em até 60%,
resultando em economia de energia. "Esse acúmulo de energia após
15 minutos de meditação deixa a pessoa mais desperta e alerta. Pronta
para encarar mais um dia de trabalho", afirma ele, que ao longo de
17 anos formou seis mil meditadores. De acordo com Tani, a meditação
diminui a produção de cortisol – identificado como um dos hormônios
do stress. Quando veio ao Brasil em 1998, o cardiologista americano Dean
Ornish recomendou dieta, oração e meditação para prevenir ataques do
coração. O neurologista Nubor Facure, diretor do Instituto do Cérebro,
em Campinas, interior de São Paulo, é tão adepto da prática que
distribui para os pacientes folhetos que ensinam a meditar. "A doença
é uma desarmonia da mente. Pode-se prevenir mentalmente resolvendo
essas desarmonias". Neste processo, um dos capítulos é a injeção de
energia. A percepção maior de si mesmo aumenta a auto-estima. A
arquiteta Ana Paula Pirajá, 27 anos, faz terapia há 12 anos e
descobriu a meditação há um ano e meio. "Sempre fui mais gorda
do que gostaria. Com a meditação, percebi que eu queria me parecer
mais comigo mesma e não com aquela gorda. Passei a respeitar o que meu
corpo falava". Ana Paula emagreceu e agora se diz mais perto de sua
auto-imagem. "Estou pegando as rédeas da minha vida. A gordura era
uma arma da qual eu não preciso mais".
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