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Uma força contra a crise

A meditação ultrapassa a fronteira do esoterismo e vira ferramenta para enfrentar as pressões da vida cotidiana

GISELE VITÓRIA E LIANA MELO

O relógio marca 12h25. O diretor-geral dos laboratórios Valda, Hugues Ferté, pede licença e interrompe uma reunião com o presidente mundial da Canonne – grupo que produz as pastilhas Valda –, o francês Christian Canonne, e com consultores da empresa de auditoria Ernest & Young. Alega ter um compromisso inadiável às 12h30. Numa sala na sede da empresa, no Rio de Janeiro, 14 pessoas o esperam. O diretor entra em silêncio, afrouxa a gravata e liga o som. Uma música suave começa a tocar. Todos se sentam em grandes almofadas coloridas, descalços e de pernas cruzadas. Fecham os olhos, respiram fundo e meditam por meia hora. Há seis anos esse ritual se repete diariamente.

A exemplo do que acontece na Canonne, empresa que fatura US$ 20 milhões por ano, a meditação não é mais uma prática exclusiva dos templos budistas ou dos cursos de ioga. Seus benefícios, que por muitos anos foram usufruídos apenas por descolados, místicos e esotéricos, ultrapassaram a fronteira do mundo alternativo para melhorar a vida do executivo das grandes empresas, do funcionário público, do arquiteto e até daquele trabalhador que pega dois ônibus e metrô para chegar ao serviço às 7h. Também tornou-se uma ferramenta útil nos consultórios de terapia. A prática milenar que antecede a época de Buda é um precioso recurso da vida moderna na tentativa de reduzir o stress e aumentar a energia.

Instituída na Canone com o sisudo termo "reengenharia do processo decisório e criativo", o nome pouco importa. O objetivo é fazer com que as pessoas olhem para si e tenham equilíbrio emocional para trabalhar melhor. "A meditação é uma alternativa simples para se atingir um alto grau de eficiência", diz o diretor Ferté. Aos 57 anos, ele não usa terno, só trabalha de branco e rabo-de-cavalo. Praticante desde 1992, construiu um jardim suspenso na empresa e convidou seus 100 funcionários a fazer um curso. "Eles estão mais dispostos e os superiores satisfeitos", diz Ferté. O presidente mundial endossa: "Não tenho razões para me preocupar com a produtividade da fábrica no Brasil".

Na prática, como um exercício espiritual pode ajudar quem vive num ritmo alucinante? De dentro do pregão da Bolsa de Valores de São Paulo, Sidney Martins, 43 anos, gerente de operações da Spinelly Corretora de valores, explica: "Posso gritar no pregão, como todos, sem me estressar. Medito para suportar a tensão da Bolsa, me manter equilibrado e trabalhar melhor. Lido com R$ 12 milhões a R$ 30 milhões por dia e por isso mesmo preciso me manter calmo". Operador da Bovespa desde 1969, Martins conheceu a meditação em 1986 e não largou mais. "Antes de sair de casa me concentro e, sempre que posso, medito no próprio pregão. Fico em silêncio e imagino que estou numa floresta ou no mar", diz ele. Avelino Gonçalves de Almeida Filho, diretor da administradora de investimentos Lógica de Mercado, faz meditação há sete meses. "Agora com essa crise terrível estou surpreso comigo. Tenho enfrentado a tormenta com fair play".

Os benefícios podem ser semelhantes ao de quem desabafa no divã de um analista. Ou até maiores. "Temos camadas que os recursos intelectuais não acessam; a meditação vai além do território analítico", diz Carlos Emediato, consultor de empresas e professor de Educação para a Paz. Emediato, que faz treinamentos de qualidade para psicólogos, consultores e educadores, utiliza a meditação com diversos recursos, como danças circulares, danças de concentração, práticas corporais, contato com a natureza e visualização."Ela é um instrumento potente para harmonizar as nossas diferentes dimensões: a corpórea-sensória, a afetiva-emocional, a intelectual-racional, a intuitiva-imaginativa e a imaginação". É natural que o contato com o próprio íntimo amplie o autoconhecimento e revigore a disposição. "Ao contrário do que pensam, meditação não deixa ninguém mais calmo. A percepção e a sensibilidade aumentam e a pessoa fica mais ativa", diz o engenheiro Ricardo Corradini, 43 anos, que pratica meditação desde 1990. "Passei a me conhecer melhor e a tomar decisões mais rápido." O funcionário da Telesp, Walter Morales, 31 anos, meditador há quatro anos, também tem muito que agradecer à prática. Operador de computador da companhia telefônica, atende assinantes que usam o site da Telesp para verificar suas contas. "Há quatro anos eu parecia um robô falando com o público. Agora, mando um abraço, atendo com gentileza. Outro dia uma assinante até me chamou para um churrasco". Morales pratica meditação ativa, inspirada no mestre indiano Osho, técnica pouco ortodoxa. "Foi uma surpresa quando disseram que eu tinha que dançar loucamente por 40 minutos".

Surpresa parecida tiveram os funcionários do Playcenter. Após uma pesquisa com 1.600 visitantes, a equipe de recursos humanos criou um programa de sensibilização para melhorar o atendimento ao público. Os 2.500 funcionários do grupo viveram a experiência de olhar para dentro de si mesmos a fim de tratar melhor o próximo. Foram usadas técnicas de teatro, circo e meditação. "Não atendemos bem o outro se não estamos bem. Quem pegou três ônibus para chegar ao parque corre o risco de descarregar seu stress no visitante", explica Leni Hidalgo de Toledo, diretora de desenvolvimento organizacional da empresa. Dos funcionários que ligam os brinquedos aos da limpeza, todos vivenciaram a experiência de gritar, dançar ou relaxar no horário de trabalho. "Eles chegaram desconfiados e retraídos. Pedia para mexerem os quadris, mexiam os ombros. Mandava gritarem, as vozes não saíam", conta a atriz Geórgia Corrêa, coordenadora do Teatraria-Espaço Ativo de Criatividade, em São Paulo, que deu o curso de teatro e meditação em São Paulo. "Mas usei o universo deles: ‘Por que todos gritam na montanha-russa? É para extravasar as emoções. Pois então façam isso!’ Aí foi incrível". Geórgia também fez cada um inventar um idioma para reclamar. A diretora Leni acredita que os funcionários foram mobilizados.

Mas, afinal, o que é meditar? Há tantos meditadores quanto explicações e métodos para meditação. Todas as correntes concordam, contudo, que é um instrumento para o autoconhecimento destinado a dar acesso a todo o potencial mental. No Dicionário Aurélio, meditar aparece como sinônimo de refletir. Mas, para os adeptos da yoga, a meditação é justamente o exercício de parar de refletir e esvaziar a mente. "Com muita prática, é possível atingir um estágio de não se pensar em nada", assegura o mestre De Rose, estudioso de yoga no Brasil. "A meditação silencia a nossa tagarelice interior", define a estudiosa Mirna Grzich . "Ao prestar atenção ao fluxo da mente e das emoções, percebemos os nossos hábitos e as nossas tendências", diz a psicóloga Isabel Vilares Cesar, diretora do Centro de Dharma da Paz Shi De Chöe Tsog, em São Paulo, fundado pelo lama Gangchen Rimpoche, mestre do budismo tibetano. De vez em quando, ela ouve em suas palestras uma pergunta aflitiva: "Mas no que eu vou ficar pensando?" Mãe do lama brasileiro, Michel Rimpoche, 16 anos, que vive na Índia há cinco anos, a psicóloga explica que é um erro, durante a meditação, ficar preocupado em sentir paz o mais rápido possível. "É preciso se aquietar para deixar que a paz que está em você se manifeste", diz. Para Isabel, observar-se garante um controle maior das emoções. "A autopercepção lhe tira a condição de refém da própria mente. Não se controlam os pensamentos, mas aprende-se a lidar com eles", diz. A prática surge como alternativa contra a correria diária, na sua opinião, porque as pessoas precisam diminuir seus ritmos de alguma forma. "A meditação abre espaço para as pessoas dentro de si mesmas".Para os budistas japoneses, zen quer dizer meditar. Para os tibetanos, a tradução é sgom, que também significa "tornar familiar". Meditar, então, seria também familiarizar a mente com coisas positivas. Conseguir isso é uma questão de treino e disciplina. No Centro de Dharma, que promove atividades de meditação de segunda à quinta-feira, o conselho aos iniciantes é começar com cinco minutos por dia. Coincide com a orientação dos consultores Ana Paula Saraiva e Emerson Ciociorowsky, donos da Tempus, empresa que usa a meditação como instrumento para administrar conflitos em empresas. "Três minutos por dia é o mínimo", resume Ciociorowsky. No livro Como meditar, um guia prático, Kathleen McDonald escreve que é possível exercitar meditação em diferentes situações. "Podemos meditar enquanto trabalhamos, caminhamos, andamos de ônibus ou preparamos o jantar".

No Espaço Sol Lua de Autoconhecimento, em São Paulo, meditar pode ser pular e rodopiar loucamente ao som de uma música indiana até entrar numa espécie de transe. Ex-seguidor do mestre Rajneesh (senhor da lua cheia) ou Osho (o bem-amado), polêmico líder espiritual indiano morto em 1991 e um dos criadores das meditações ativas, o ex-ator e terapeuta Jovelty Archângelo, também chamado de Kamal, ensina meditação com vibrantes movimentos corporais. "Respire tão depressa quanto puder... Exploda, deixe o corpo assumir o controle. Enlouqueça completamente. Cante, urre, gargalhe, pule. Não deixe a mente interferir. Pare 15 minutos na posição que estiver. Perceba o que está acontecendo", diz um trecho do roteiro da meditação dinâmica, uma das nove que ele aplica. "As pessoas chegam aqui agitadas. Nada mais apropriado do que começar a meditação com muita energia para cansar o corpo e descansar a mente", diz ele. "As pessoas vêm aqui à procura de si próprias", diz.

Nos anos 70 e 80, Archângelo coordenou o grupo Soma, comunidade que representava Rajneesh no Brasil. Na época, o líder indiano vivia nos noticiários. Seus Rolls Royces e as polpudas doações de seus seguidores escandalizavam os americanos assim como a proposta de vivências sexuais para desnudar fantasias. Archângelo voltou ao Brasil após seis anos com Rajneesh na Índia. Um dos eventos mais concorridos do Soma nos anos 80 chamava-se significativamente Orgasmo para todos. "Foi uma busca de contato com uma vibração cósmica", explica. A proposta, com indisfarçável gosto de época, também pertence ao passado da meditação. Archângelo desligou-se de seu guru em 1984 e agora a história é outra. "Hoje buscamos religar as pessoas com sua energia na sua árdua rotina".

Os benefícios da meditação têm sido investigados pela ciência. "Pesquisas científicas a tornaram mais aceita", diz Kleber Tani, presidente da Sociedade Internacional de Meditação no Rio de Janeiro. Segundo ele, estudos mostram que o nível de relaxamento durante a meditação é de seis a oito vezes maior do que durante o sono. Além disso, o dispêndio de oxigênio pode diminuir em até 60%, resultando em economia de energia. "Esse acúmulo de energia após 15 minutos de meditação deixa a pessoa mais desperta e alerta. Pronta para encarar mais um dia de trabalho", afirma ele, que ao longo de 17 anos formou seis mil meditadores. De acordo com Tani, a meditação diminui a produção de cortisol – identificado como um dos hormônios do stress. Quando veio ao Brasil em 1998, o cardiologista americano Dean Ornish recomendou dieta, oração e meditação para prevenir ataques do coração. O neurologista Nubor Facure, diretor do Instituto do Cérebro, em Campinas, interior de São Paulo, é tão adepto da prática que distribui para os pacientes folhetos que ensinam a meditar. "A doença é uma desarmonia da mente. Pode-se prevenir mentalmente resolvendo essas desarmonias".

Se de fato isso acontece, o executivo Marcelo Geraldi, diretor de marketing da Farmoquímica, no Rio, encontrou o remédio certo. Ele é um dos propagadores da meditação no mundo dos negócios. "A pressão é massacrante e a meditação ajuda o executivo a ter mais clareza ao tomar decisões. E ainda melhora o relacionamento com as pessoas", garante. Sem almofadas ou incensos, Geraldi medita sentado em sua cadeira de trabalho diariamente antes do almoço. "Meditar 20 minutos por dia é um investimento barato que traz benefícios a médio prazo", afirma. O empresário Roberto Duailibi, o D da agência de propaganda DPZ, medita pelo menos uma vez por semana e diz que os exercícios são muito úteis em seu processo de criação. "Tenho a sensação de estar plenamente alerta, mesmo sem estar pensando em coisa nenhuma". Talvez essa mesma sensação tenha evitado que Marcos Novaes, diretor comercial da Áurea Seguradora de Garantias, se desgastasse demasiadamente ao fechar um contrato recente de US$15 milhões. "Se não fosse a meditação eu teria vivido uma estafa".

Neste processo, um dos capítulos é a injeção de energia. A percepção maior de si mesmo aumenta a auto-estima. A arquiteta Ana Paula Pirajá, 27 anos, faz terapia há 12 anos e descobriu a meditação há um ano e meio. "Sempre fui mais gorda do que gostaria. Com a meditação, percebi que eu queria me parecer mais comigo mesma e não com aquela gorda. Passei a respeitar o que meu corpo falava". Ana Paula emagreceu e agora se diz mais perto de sua auto-imagem. "Estou pegando as rédeas da minha vida. A gordura era uma arma da qual eu não preciso mais".

Entre os jovens, a meditação também começa a ser descoberta. Através de artes marciais como o tai chi chuan e o ian ging, o colégio Logus, em São Paulo, tem conseguido chamar a atenção dos adolescentes para a prática. "Ajuda o jovem a ir ao encontro de si mesmo", diz Ricardo Silva, 50 anos, diretor da Sociedade Paulista de Ian Ging e Filosofia Chinesa, que implantou essas atividades na escola. "Notamos que houve melhora na concentração dos alunos e até uma menina que tinha problemas com drogas progrediu bastante", afirma ele. Silva ressalva, no entanto, que a prática não é uma panacéia universal que beneficia a todos. "Há pessoas que conseguem efeitos semelhantes jogando futebol".

Tanta procura, contudo, não deve virar oba-oba. Meditação não faz milagres. "Tem gente que acha que pode fazer um fast food na meditação", diz o engenheiro eletrônico Daniel Henry Calmanowitz, professor de yoga e consultor de empresas nessa área. Pai do lama Michel, Calmanowitz tem formação budista e já deu cursos de meditação na Tec Toy e na General Motors.

Entrar no território íntimo requer preparo e coragem. É como na psicanálise. "Conheço pessoas que pararam de meditar por medo. Lidar com algo desconhecido é sempre uma ameaça", observa Isabel Vilares Cesar. A psicóloga Marua Pace, 43 anos, que recorre a técnicas de respiração usadas na meditação para equilibrar as emoções, endossa que o processo é doloroso. "Não é todo mundo que aguenta crescer ou se dispõe a isso", diz Marua. Mas, como diz a terapeuta, fazendo coro a um grupo cada vez maior de ocidentais, vale a pena tentar.

Colaboraram: Ivan Padilla, Marta Góes e Maria Fernanda Delmas (SP)

Publicado por ISTOÉ